sábado, 24 de janeiro de 2015

Metamórphosis

Dá-me uma flor. Oferece-me a mais bonita, a mais branca, a mais pura. Dá-ma para eu a ter no meu quarto, quero que ela mo perfume, quero encher este espaço com o seu odor que de tão virgem, tão casto, sublima um nirvana,

Quero-a para mim. Só para mim. Quero-a aqui.
Vou contemplar com deleito a vida que emana, vou ser mais alta por tê-la aqui, composta de fragilidade, os meus nervos vão esbugalhar-se inefavelmente com este, meu, pedaço de génese.
Sentei-me na cama, tenho comigo toda a perversão e compulsão, que são da condição humana, e por sê-lo, são do destino de todos. Consigo, complacente, vê-la a ser tomada pela efemeridade dos vivos. A beleza de hoje vai, docemente e com ligeireza, ser entregue à minha memória, a brancura por que hoje prima e resplandece, vai ser corrompida a seu tempo, a morte dar-lhe-á um tom acastanhado, vai beijá-la com escuridão. Bem sabemos todos que não há luz que sempre dure, não há cor que saiba ser viva se pertence somente a um par de olhos. E, oh! A pureza! Também essa tem hora marcada, quem pertence ao mundo, furta-lhe a experiência, chega sempre a hora para a mistura, infetada pelo andaço do individualismo, da existência só.
Pois bem, meu amor, minha singela flor, vou pôr-te em água e ver evaporar-se de ti a vida que esta não te devolve. Precisas de seivas, precisas de te ligar à terra, sempre o soube, mas, sórdida, torpe e vil como sou, antecipei-te o fim com desdém e indiscrição. Sabia que ias morrer comigo, por anseio meu. Não foste para mim mais do que uma flor, e no entanto, por me teres pertencido, foste tão mais que isso. Conservo-te seca, morta, acanhada a um canto do quarto, és a prova íntima da podridão do meu ser, da minha obscena necessidade de ampliar o trivial, de estragar, de tomar todas as fazes, de beber de todos os copos, misturar o doente com o são, de rir por ti e por mim, de sofrer na carne a ausência e a presença.

Toda a metamorfose tem por onde despojar um ser.

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