domingo, 29 de setembro de 2013

Somos contos de contos, contando contos, nada.

Morrerei um dia. E com gosto.
Mesmo que em vida não marque ninguém, não desafie obstáculos, não promova avanços, não inspire quem por mim se cruza, não sinta o amor transcendente de outrem, não ria o suficiente, não aprenda com os erros, mesmo que à minha morte tudo de mim parta do mundo, toda a minha existência fique com o meu último suspiro. Mesmo assim, que bom será morrer!
Fá-lo ei sem relutância, com a entrega de um devoto, e a inocência de um crente.
Porque dia após dia, viver é uma escolha que me pertence muito, e quase não penso sobre ela, porque não me quero matar. E isto de não me querer matar pouco se expande para além da pura curiosidade. Oh, como se teima em sobrevalorizar a simplicidade, é o ser humano intrinsecamente básico e ainda assim ousa teimosamente elevar-se à complexidade de um raciociocínio. Que raça estúpida e desprezível. Que raça ardente e apaixonante.
Imenso é o paradoxo que nos envolve e imensa a bondade com que o acarinhamos.
Não sou mais que um organismo de células, com direito a uma vida de alguma racionalidade, um aglomerado de experiências, histórias que nada valem e são tudo em mim.
Assumo a responsabilidade pela forma fragmentada como este texto se desenvolveu, mas tal como eu, ele não se deixou crescer com regras de lógica ou beleza concreta, não se preocupou, porque nada importa, é irrelevante, único, uma extensão de mim, inútil, vivo, uma questão de perspectiva, de estado de espírito, de alma.

Por isso vivo como quero, a morte é minha e a mais nada aspiro. Tudo o mais é prémio, recompensa de esforço algum, sorriso leve e ébrio, dor que emancipa, acidez que me autentifica, podridão e pureza em simultâneo. Tudo de nada, nada em tudo, algures, jamais, é isto e não é nada, sou eu e não existo.
Oh, que importa ?
Conquistei o riso alucinado, porque sou louca e retraída, tenho medo e sorrio.
Quando morrer tudo terá fim, e o que sou em mim se findará. Esta evidência torna-me a vida tão minha que rejubilo com a excitação de ser, elevo-me ao pináculo de mim mesma, a um orgasmo que se intelectualizou, um frenético aglomerado de sensações que implode na paz da aceitação.

2 comentários:

  1. Sem dúvida o melhor pedaço de poesia que já li. Muito bom Catarina! ;D

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    1. Oh João, muito obrigada, essa é uma afirmação muito forte !
      Fico muito feliz por teres gostado :D

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